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A Palestina é aqui


O sol incandescente suspenso solitário no céu, apontava seus raios em nossas costas como um revolver silencioso. Uma águia se atrevia a esvoaçar alheia a paisagem árida, e a proibição de se voar em liberdade naquele céu. De repente surgiu um posto de controle, os chamados check-points, soldados armados, todos adolescentes, apontaram seus fuzis para a nossa direção, inspecionaram a placa e a permissão do veículo para circular naquela região onde a linguagem é a do ódio e do sangue. Um deles nos pergunta: “o que vocês vieram fazer aqui, é a morte que procuram?” Estávamos na zona conflituosa da Palestina.
Meses depois o mesmo sol forte mobilizou os meus gestos, quando dentro de um carro atravessei o Complexo da Maré, para chegar na comunidade da Nova Holanda, onde funciona o Projeto social Vida Real.
Como jornalista e escritora infantil eu tenho percorrido regiões de pobreza e violência no Rio de Janeiro, levando o que eu mais acredito como antídoto para essa degradação humana: o sonho e a literatura. Eu estava ali, como na Palestina, para mostrar a fantasia que pedia emprestado aos livros, tentando provar que a minha missão era apenas de paz.

O carro foi interceptado por quatro adolescentes armados, sem camisa. Era o check point imposto pelo tráfico de drogas. Eles carregavam dois fuzis pendurados em cada ombro e um revólver na cintura, atravessado nas costas, dois pentes repletos de balas. Seus olhos eram os mesmos dos jovens soldados do outro lado do mundo: revelavam cansaço e, frieza. O jeito inexpressivo de seus rostos era por si só a expressão, eles pareciam perguntar: “o que fazem aqui, é a morte que procuram?”
Sei que mestres das palavras, nós escritores, não carecemos de retórica diante da eloqüência do sangue. Seja no Brasil, na Palestina, em Israel, Afeganistão, Paquistão, Colômbia, Haiti....nossa tarefa é humanizar a história da qual somos simultaneamente criadores e personagens.
A favela da Maré não é diferente de Gaza: ao anoitecer silêncio entre as ruelas, medo dos homens fardados e dos bandidos, dos tanques de guerra, do “caveirão”, da ocupação, das bombas, tiros, terroristas e inimigos...A disputa também é quase igual: territorial e a munição é a mesma: a da força, da tortura, da violência gratuita.
Os meninos brasileiros são catequizados desde cedo a conhecer o ódio, o temor, o desprezo pela vida. Não amarram bombas ao corpo, mas quando carregam as suas armas, eles se transformam nos próprios homens bombas, prontos a matar e a morrer, sem dar a mínima importância o que eles têm de mais valiosos, à vida.
Depoimentos impressionantes confirmam que em situações de emergência o escritor parte à procura de um papel moral, um papel para resgatar valores, dos quais o mais importante é a liberdade de sonhar por uma condição melhor de viver.

“Se eu viver até lá quero ser advogado. Quero ser importante como as pessoas que passam na Linha Vermelha, fechadas num carro de vidro preto”.- Jefferson, brasileiro, morador da Maré,14 anos, diz com a certeza da vida curta. (Pai e irmão mortos pelo tráfico de drogas na frente dele)
Jefferson, João e Yara têm a mesma expressão de Ahmed, Yasin e Zarifa. Olhar frio, de conformismo com a realidade que herdaram do pai, que herdou do avô. E nasceram já com o dom da aceitação pela condição imoral de que a guerra é normal.
“- Ah! Isso aqui não tem jeito não. Os adultos não querem a paz”, Yasin,, moradora de Belém, na Palestina, 10 anos, me falou num inglês perfeito.
-“Já perdi cinco pessoas da minha família na guerra do tráfico. Meu pai morreu na troca de tiros entre policiais e traficantes, em 1998. Eu gostaria que aqui não tivesse bandido.” – João fala com a naturalidade de quem narra uma história que não é a sua.
-“Minha mãe levou um tiro quando passava na hora que soldados invadiram a prisão em Jericó.Aqui eu aprendi a ter ódio. ”- Ahmed relata com frieza.
Tanto lá, como cá, esses jovens buscam uma fresta entre as paredes dos seus barracos para respirar a brisa da esperança e quem sabe poder aprender a sonhar. Aqui e em outras zonas de guerra mundo afora, os sentimentos são os mesmos.
Na Palestina, a convite do Institute Tamer, tive a oportunidade de conhecer o trabalho com bibliotecas espalhadas em cada canto daquela terra devastada pela guerra, na tentativa de salvar as crianças vítimas do ódio fratricida entre dois povos filhos da mesma origem bíblica. Eles utilizam os livros para recuperar nos pequenos leitores a fé na vida, mostrando-lhes que o combate ao sofrimento de que padecem pode (e deve) começar pela alma.
Conhecendo as duas realidades – dos cariocas e dos palestinos – estabeleci uma conexão pela dor entre os dois mundos infantis: em ambos o remédio mais eficaz é o mesmo, o livro: Shirine, de 8 anos, mora em Ramallah. Diz ela: “Ontem os soldados entraram na minha rua metralhando tudo e quem estava por perto. Minha família estava trabalhando. Fiquei chorando de medo. Meu vizinho morreu. Eu quero paz, e menos violência no mundo”.

O menino Ramon tem 12 anos, morador da Maré, escreveu:
“Ontem a policia invadiu a favela. Foi tiro para tudo que é lado. Mataram toda a família do meu vizinho.Eu não quero ter medo. Para isso teria que acabar com as armas e com as drogas nesse lugar. Quando eu crescer queria ser dono de uma fábrica de chocolate.”
A palestina de 10 anos, Marwa Hazin, me afirma que o seu sonho “é igual ao de todo mundo aqui: a paz”. E perguntou: “por que explodem as nossas casas? O que nós, crianças, fizemos para merecer isso?”
Na Faixa de Gaza, como é conhecida uma área da Maré, não é diferente o universo da outra Gaza distante e é lá vive também Pedro, 15 anos: “Meu irmão foi gerente-geral do tráfico em Belford Roxo. Ele morreu com a minha idade. O meu maior sonho é ser jogador de futebol. Não sei o que eu devo fazer para mudar o mundo. Só sei que eu quero a paz!” Todas essas crianças e jovens vêm sendo tratadas à base de leitura, e muitas já recuperaram ao menos o jeito inocente de sorrir. Se as crianças que hoje seguram metralhadoras, traficam e se prostituem tivessem a oportunidade de aprender com os livros a magia dos sonhos, a violência que está bem próxima de nós, nas ruas das grandes cidades, poderia baixar rapidamente para níveis ao menos suportáveis. Com uma parcela do que se gasta no combate à violência daria para construir quantas bibliotecas onde os meninos e meninas poderiam encontrar o direito que têm de sonhar e realizar seus ideais. A palavra é uma arma muito poderosa, e preventiva. Ela faz refletir. A cultura e a educação não são bens abstratos, mas concretos e fundamentais, capazes de estabelecer condições reais para uma vida digna entre as pessoas, entre os cidadãos de qualquer país.

No entanto, ao evocarmos o futuro, quase todos os olhares ficam vagos, mas mesmo assim insisto teimosamente na lição sobre os camelos, lâmpadas de Aladim, tapetes voadores, fadas e elefantes que voam. Não podemos destruir a capacidade de pensar alimentando a economia da droga, como nas fronteiras de Gaza se dedicam a adestrar os kamikazes a guerra santa. Armemos estas crianças de papel, caneta, e livros antes que seja tarde demais.Tanto na Faixa de Gaza de lá como a de cá, todos exigem ter uma vida normal. Para Jefferson que tinha o sonho de ser advogado não foi possível, como se adivinhasse a existência precoce, há um mês ele foi assassinado levando o sonho de se um advogado.
Apesar das histórias trágicas, nós sofremos de um mal incurável: a esperança.

( Artigo publicado no jornal O Globo - Março em 2009 )